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Redes da vida

Revista Aquamagazine

Edição nº 4

Redes da vida.

Caros leitores, muitas pessoas se orgulham de dizer que após efetuar vários testes químicos em seus aquários os resultados estavam todos “zerados”. Sem dúvida esta informação está correta do ponto de vista dos resultados dos testes, mas a afirmação é falsa.

Dentro de nosso aquário muitas reações químicas estão ocorrendo e não podem parar, pois a vida deixa de acontecer quando cessam essas interações.

Pois então, para onde foram a amônia, o nitrito, o nitrato ou o fosfato que estavam presentes e agora não estão, Segundo o resultado dos testes? Ou então, onde está o ferro, o iodo ou o cálcio que ponho regularmente no meu aquário? Não é novidade nenhuma, mas muitos já esqueceram ou não levam em consideração que existe um postulado muito antigo que diz: “Numa reacão química a massa se conserva porque não ocorre criação nem destruição da matéria. Os átomos são conservados, eles apenas se rearranjam.

Os agregados atômicos dos reagentes são desfeitos e novos agregados atômicos são formados.” É o princípio da conservação da matéria ou a Lei de Lavoisier (Paris, 1743 -1794), romanticamente conhecida como: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”

Bom, posso afirmar que nada acaba ou “zera” no aquário, apenas é transformado ou passa de uma forma disponível ou solúvel para outra complexa indisponível, muitas vezes tornando-se parte da matéria orgânica viva e sumindo do alcance dos testes. Também existe a precipitação, íons dissolvidos na água formando moléculas de minerais insolúveis que ao se precipitarem somem dos resultados dos testes.

Mas, em ambos os casos, continuam ali no seu sistema, prontos para aparecer novamente se as condições forem propícias.

Pondo abaixo o dogma do “zerado”, devemos compreender que emnossos aquários existe um potencial de produção e outro de consumo para cada elemento químico envolvido nos processos metabólicos (entendam como metabolismo igual à vida).

Pronto! Temos a chave para compreender como o resultado de alguns testes tende a zero. Naquele momento, o elemento químico que foi testado possui um equilíbrio entre a sua produção e o seu consumo, ou seja, se o potencial de produção do seu aquário é de 0,1 ppm de amônia por hora e a capacidade de consumo é de igual 0,1 ppm, o que sobra de amônia para aparecer no teste tenderá a zero. Independentemente dos resultados dos testes, devemos compreender os sistemas biológicos e aprender a interpretar seus resultados.

Cito como exemplo um aquário infestado de algas diatomáceas, em que sabemos que o fator limitante para seu desenvolvimento é a disponibilidade do íon silicato.

Ao mesmo tempo essas algas continuam a se desenvolver, e os testes feitos periodicamente não apresentam silicatos disponíveis na água do aquário.

Então é fácil perceber que o potencial de produção de silicatos desse sistema é alto, e uma forma que o sistema encontrou para entrar em equilíbrio foi desenvolvendo uma grande colônia de consumidores desse produto, que passaram a consumi-lo, fazendo com que os resultados dos testes tendam a zero.

Tenho lido muito sobre as nossas conclusões a respeito do aquarismo, e todas nos levam a interpretar que o sistema ideal é aquele que está em equilíbrio. Como então se explica o exemplo dado acima sobre o silicato e seu efeito sobre o crescimento das algas diatomáceas?

O sistema chegou ao equilíbrio, mas sabemos que algas presentes em grande quantidade exercem um efeito nocivo para o resto da vida do nosso aquário. A resposta é que naturalmente sistemas tendem ao equilíbrio e, mesmo que não façamos nada a respeito, nosso aquário tenderá a isso; mas a vida que ele contém necessita de energia e não conhecemos nenhum sistema produtor ou consumidor de energia em equilíbrio completo.

Por isso existe a necessidade da nossa constante intervenção, sempre pondo ou tirando alguma coisa do aquário.

Por incrível que pareça é dessa forma, rompendo a tendência ao equilíbrio, que damos vida ao aquário ou propiciamos meios e energia para a transformação.

Mas o mais importante fato que nos falta compreender é a relação que todos esses eventos químicos, físicos ou biológicos têm entre si, desenvolvendo uma verdadeira rede de fenômenos e tornando um único resultado, como um simples teste de silicato, o ponto de partida para uma série de eventos em forma de rede e não encadeados como se imagina.

Quando lemos sobre os eventos que ocorrem em nosso aquário (por exemplo, o ciclo do nitrogênio ou do fósforo), entendemos como escalas lineares de causa e efeito, sabemos como eles ocorrem e quais as bactérias e vegetais que tomam parte desses acontecimentos em seqü.ncia; mas nunca pensamos nas suas relações.

A verdade é que ao mesmo tempo muitos outros ciclos estarão se desenvolvendo, respeitando as suas cadeias de acontecimento; mas totalmente relacionados entre si, ou seja, deveríamos analisar o aquário como um todo.

Como ainda não existe um teste que proporcione a leitura do todo de um aquário, cabe a nós fazer a melhor interpretação com as ferramentas que temos.

Assim sendo, é fundamental a observação e a comparação dos nossos aquários com a natureza e o entendimento que a vida no aquário também depende de uma rede intrincada de eventos interdependentes. Com o resultado dos testes teremos a compreensão das partes, mas cabe a nós a interpretação correta do todo.

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Aquamagazine Edição 04


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